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Quadro clínico e
Epidemiologia
Regurgitação é definida como
expulsão não-forçada de alimentos e secreções do esôfago ou do estômago pela
boca. Não se observa a presença de náuseas ou esforço abdominal na eliminação
dos alimentos. Vômito é a expulsão forçada de alimentos e secreções do trato
gastrintestinal alto pela boca, acompanhada por contração intensa dos
músculos abdominais.
Nas primeiras semanas de vida, muitos bebês normais regurgitam uma ou mais
vezes por dia, pouco tempo após a alimentação. Denomina-se regurgitação
fisiológica a situação na qual a criança não apresenta outros sintomas, a
evolução do ganho de peso é normal e a diminuição gradativa das regurgitações
ocorre ao longo do tempo, cessando por volta dos sete a oito meses de idade.
Refluxo gastroesofágico fisiológico e erros de técnica alimentar são as
causas mais comuns de regurgitação e vômitos no lactente.
A abordagem diagnóstica do lactente com queixa de regurgitações freqüentes
deve ser realizada, inicialmente, verificando-se a experiência materna com a
alimentação do bebê, pois não é incomum o encontro de mães inexperientes que
consideram anormal o padrão de regurgitação esperado para a idade. Em
seguida, procura-se identificar, pela história e observação da amamentação da
criança durante a consulta, se as seguintes situações, que podem causar
regurgitação e vômitos, estão presentes: (1) aquelas que favorecem a ingestão
excessiva de ar antes ou durante as mamadas como choro intenso, ou orifício
do bico da mamadeira muito grande ou muito pequeno; (2) se o lactente em
aleitamento artificial, especialmente no primeiro mês de vida, recebe excesso
de leite em cada mamada; (3) se a criança é muito manipulada após as mamadas
e (4) se o bebê não é colocado para arrotar após as mamadas. Durante os
primeiros seis meses de vida, a criança respira durante a sucção e,
conseqüentemente, ocorre preenchimento da orofaringe com ar, o qual é levado
junto com o alimento para o esôfago e estômago. Esse fato explica a
necessidade da criança de arrotar, sendo necessário mantê-la alguns minutos
levantada, na posição vertical, após as mamadas. Se a criança é colocada na
posição deitada imediatamente após ter mamado, a expulsão do ar por meio do
arroto pode causar regurgitação do leite. Esse padrão geralmente cessa a
partir dos seis meses de idade, quando a respiração e a sucção passam a
ocorrer de forma alternada.
Nos casos em que há problemas de estreitamento congênito ou de lesões
adquiridas do esôfago, as regurgitações podem estar associadas à presença de
vômitos e, geralmente, encontra-se comprometimento do estado nutricional da
criança ou dificuldade para engolir os alimentos. Assim, os dados obtidos na
história e no exame físico permitem levantar essas hipóteses diagnósticas e
orientam o encaminhamento para investigação especializada no centro de
referência.
Vômito pode ser a queixa principal que leva a criança ao médico ou aparece
como parte do quadro clínico de diversas doenças, com importância variável no
conjunto de sintomas. Assim, como são muitas as situações e doenças que
determinam esse sintoma, o conhecimento de em quais faixas etárias predomina
facilita abordagem diagnóstica da criança com vômitos (Quadro 1). Além disso,
as características do material eliminado pelo vômito permitem inferir de onde
retorna esse conteúdo. Na maioria dos casos, os vômitos são de material
contido no estômago, representado por leite coalhado, alimentos parcial ou
totalmente digeridos ou suco gástrico de cor amarela quando o paciente
encontra-se em jejum por várias horas. A presença de vômito bilioso (de
cor verde) ou vômito fecal (com odor de fezes), sugerem obstrução do
intestino. Vômito de alimentos não digeridos sugere estreitamento ou
obstrução do esôfago ou do esfíncter inferior do esôfago. Hematêmese é
o vômito com sangue vivo liqüefeito e/ou com coágulos ou com sangue digerido,
semelhante à borra do café, que pode ou não estar misturado a alimentos. A
hematêmese geralmente decorre de sangramento digestivo alto, mas pode ser
apenas a eliminação de sangue deglutido proveniente da rinofaringe ou de fissuras
da mama materna. Vômitos em jato caracterizam-se por serem
inesperados, súbitos, às vezes violentos e não serem precedidos de náuseas.
Associam-se a quadros obstrutivos intestinais e de hipertensão intracraniana.
Quadro 1 - Causas de regurgitação e vômitos por faixa etária.
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NO PRIMEIRO MÊS DE VIDA
1. Regurgitação fisiológica
2. Refluxo gastroesofágico fisiológico
3. Técnica alimentar inadequada
4. Doença do refluxo gastroesofágico associada ou não a hérnia de hiato
5. Outras
5.1. Quadros obstrutivo congênito ou adquirido ou quadros inflamatórios do
esôfago, piloro ou intestino
5.2. Doença metabólica
- erros inatos do metabolismo
5.3. Doença endocrinológica
- hiperplasia congênita de supra-renal
LACTENTE
1. Regurgitação fisiológica
2. Refluxo gastroesofágico fisiológico
3. Técnica alimentar inadequada
4. Doença do refluxo gastroesofágico associada ou não à hérnia de hiato
5. Enteroparasitoses: giardíase
6. Outras
6.1. Quadros obstrutivos congênito ou adquirido ou quadros inflamatórios do
esôfago, piloro ou intestino
6.2. Doença metabólica
- erros inatos do metabolismo
6.3. Doenças endocrinológicas
- hiperplasia congênita de supra-renal
PRÉ-ESCOLAR
- cinetose
- suboclusão ou oclusão intestinal por áscaris
- hepatite viral
- síndrome do vômito cíclico
- vômitos psicogênicos
- gastrite erosiva secundária
- úlcera péptica secundária
ESCOLAR
- vômitos psicogênicos
- enxaqueca
- síndrome do vômito cíclico
- gastrite erosiva secundária
- úlcera péptica secundária
ADOLESCÊNCIA
- gravidez
- enxaqueca
- anorexia nervosa/bulimia
- úlcera péptica |
EM QUALQUER IDADE
· aparelho respiratório
- infecções respiratórias
- tosse
- gotejamento retronasal e secreção faríngea
· aparelho gastrintestinal
- gastroenterite aguda
- hérnia inguinal encarcerada
- intoxicação alimentar
- esofagite
- pancreatite
- colecistite
· aparelho geniturinário
- litíase
- pielonefrite aguda
- uremia
- insuficiência renal crônica
- tubulopatias
· sistema nervoso central
- meningite, encefalite
· sistema endocrinológico
- cetoacidose diabética
· miscelânea
- intoxicação medicamentosa acidental
- efeito colateral de algumas drogas, como sulfato ferroso, antibióticos e
outras |
Quando o vômito é a principal ou única manifestação, inicialmente, é preciso
caracterizar se o quadro é agudo ou recorrente. Excetuando-se as situações
extremas, nas quais é possível identificar início recente ou história de
longa duração, é difícil definir o momento em que os quadros de vômitos
perdem o seu caráter agudo e tornam-se crônicos. Consideram os seguintes
critérios para definir vômito recorrente: pelo menos três episódios, num
período mínimo de três meses.
- Deve-se distinguir uma doença aguda ou um episódio agudo no decorrer de uma
história de vômito recorrente.
A Criança com quadro agudo de vômitos
No quadro agudo, o vômito pode ser a manifestação clínica inicial, mas logo
aparecem outros sintomas que permitem definir o diagnóstico como nos casos de
gastrenterite aguda viral, bacteriana ou por enteroparasitose, intoxicação
alimentar e hepatite viral. A concomitância de diarréia direciona a suspeita
diagnóstica para o quadro de infecção intestinal ou intoxicação alimentar.
Deve-se, então, verificar se uma ou mais pessoas que ingeriram o mesmo
alimento apresentam quadro de náuseas, vômitos, diarréia e cólicas
abdominais, o que sugere o diagnóstico de intoxicação alimentar. Deve-se,
também, pesquisar se houve contato com crianças com hepatite viral e se, na
creche que a criança freqüenta, existem outras com quadro semelhante,
sugerindo gastroenterite por rotavírus ou por agentes bacterianos.
Investigar, nas crianças com precárias condições de vida, se têm contato com
esgoto a céu aberto ou córregos poluídos. Na giardíase, além dos vômitos,
aparecem diarréia aquosa, anorexia e dor abdominal. Entre as helmintíases, na
estrongiloidíase, a dor abdominal é difusa, acompanhada de vômitos, diarréia
com ou sem sangue.
O comprometimento de outros sistemas pode apresentar o vômito como um dos sintomas
do quadro agudo. Assim, inflamações das vias respiratórias podem se
acompanhar de vômitos causados pelo estímulo vagal desencadeado na
amigdalite, faringite e na presença de tosse. Na otite média aguda, os
vômitos são devidos ao quadro associado de labirintite. O comprometimento do
sistema nervoso central costuma cursar com vômitos em jato, geralmente
associados a outros sintomas, como na meningite, na encefalite, hemorragia
intracraniana e no hematoma subdural. O acometimento agudo do trato urinário
pode desencadear vômitos como a pielonefrite aguda e a litíase renal. Vômitos
podem ser decorrentes de intoxicação crônica ou acidental por teofilina,
digitálicos, ácido acetilsalicílico e outros medicamentos ou do efeito
colateral do sulfato ferroso e de antibióticos.
- Na queixa aguda de vômitos, o maior desafio da equipe de saúde é o
diagnóstico e intervenção precoces nos quadros de abdome agudo, os quais,
devido à sua gravidade, podem determinar complicações e até o óbito. O abdome
agudo é caracterizado pela presença de dor de aparecimento súbito, com
vômitos e parada de eliminação de gases e fezes, sendo que essas
manifestações podem não ser, necessariamente, concomitantes. Na maioria dos
casos, a história e o exame físico permitem diagnosticar o abdome agudo. A
maioria dos casos de abdome agudo é de resolução cirúrgica; entretanto, em
alguns, o tratamento é eminentemente clínico, sendo que todos os casos devem
ser encaminhados imediatamente para atendimento hospitalar.
A partir da história e exame físico, é possível identificar os sinais de
alerta que auxiliam a suspeitar de abdome agudo. Tannuri relaciona os
seguintes sinais de alarme.
1. Vômito: repetitivo ou bilioso, fecalóide ou em jato é o primeiro e
mais importante sintoma de obstrução intestinal.
2. Tumoração abdominal: a palpação de tumorações abdominais associada
a outras manifestações clínicas de abdome agudo pode orientar, inclusive, o
diagnóstico etiológico, como é o caso da palpação do tumor pilórico na
estenose hipertrófica de piloro, da presença de um ou mais tumores na
obstrução intestinal por "bolo de áscaris" e do tumor em forma de
salsicha na invaginação intestinal.
3. Distensão abdominal: pode ser decorrente da distensão das alças
intestinais nas obstruções baixas do trato digestivo; do acúmulo de líquido
na cavidade peritoneal; do íleo paralítico na peritonite por perfuração de
víscera oca e de íleo infeccioso.
4. Enterorragia: sangramento intestinal associado a outros sinais de
abdome agudo indica o comprometimento da mucosa das porções baixas do trato
gastrintestinal.
5. Peristaltismo visível: quase sempre constitui um indicador da
presença de obstrução em alguma parte do tubo digestivo. Nos desnutridos e
prematuros sem afecção do trato digestivo, o peristaltismo intestinal pode
ser visível devido ao fato de a parede abdominal ser muito delgada.
A criança com quadro recorrente de vômitos
Para a abordagem da criança com queixa de vômitos recorrentes, é importante,
num primeiro momento, identificar se há comprometimento do estado nutricional
e/ou presença de manifestações sistêmicas e se as características dos vômitos
sugerem obstrução ou lesão do trato gastrintestinal ou de alteração no
sistema nervoso central.
Embora cerca de 50% dos lactentes apresentem regurgitação ou vômitos
recorrentes como queixa isolada, apenas 5% apresentam alguma doença
significante. A maioria desses casos é decorrente da combinação de vários
fatores, como técnica alimentar inadequada, distúrbios na relação do binômio
mãe e filho e imaturidade da junção gastroesofágica (refluxo gastroesofágico
fisiológico). Para aqueles com baixo ganho ponderal ou emagrecimento, a causa
mais freqüente é a doença do refluxo gastroesofágico.
Das causas de vômitos recorrentes fora do trato digestivo, têm-se as anomalias
obstrutivas do trato urinário, com dilatação da pelve renal ou hidronefrose,
a insuficiência renal crônica (uremia), a hipertensão intracraniana, a
enxaqueca, que acomete mais freqüentemente crianças a partir dos seis anos de
idade e adolescentes, e outras. Para o diagnóstico da enxaqueca, a cefaléia
deve estar associada ao episódio de vômitos (ver capítulo Dores Recorrentes
na Infância.).
Os vômitos podem ser desencadeados por situações que geram medo ou ansiedade.
Uma situação comum nos pré-escolares são os vômitos imediatamente após as
refeições, quando são forçados a comer.
Refluxo gastroesofágico - retorno involuntário do material
ingerido do estômago para o esôfago, comum em lactentes e adultos normais.
Deve-se, portanto, considerar o refluxo gastroesofágico (RGE), inicialmente,
como uma condição normal do lactente, que se acompanha de sintomatologia
digestiva - vômitos e/ou regurgitações - e que melhora com o crescimento.
Esse tipo de RGE, que não apresenta nenhuma repercussão na vida da criança, é
denominado fisiológico. Estima-se que cerca de 20% dos bebês sadios têm
episódios de regurgitação suficientemente freqüentes para que sejam
considerados como problema pelos pais. Na maioria das crianças, o RGE não tem
complicações e é autolimitado, tendo resolução espontânea até os 12 a 15
meses de idade.
Define-se como doença do refluxo gastroesofágico a condição na qual,
além dos vômitos, há comprometimento da evolução ponderal, esofagite ou
quadro respiratório importante, com ou sem vômitos associados (Quadro 2 ).
Quadro 2 - Quadro clínico da doença do refluxo gastroesofágico na
infância.
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Manifestações devido à
regurgitação e suas seqüelas:
- vômitos com perda ou baixo ganho ponderal
Manifestações devido à esofagite e suas seqüelas
- epigastralgia (dor retroesternal)
- pirose
- irritabilidade
- sono agitado
- opistótono
- dificuldade para deglutir
- sangramento digestivo
- anemia
- perda ou baixo ganho ponderal
Manifestações respiratórias
- quadro bronquítico de difícil controle
- pneumonias de repetição, especialmente quando sempre são no pulmão
direito
- crises de apnéia
- tosse crônica
Outras manifestações
- síndrome da quase-morte súbita |
Adaptado de Orestein - 1992.
Síndrome do vômito cíclico - caracteriza-se por crises de
vômitos precedidos por náuseas e ânsia, com período intercrítico
assintomático. A média de hospitalização nas populações estudadas é de 12
vezes por ano. As faixas etárias mais acometidas são a pré-escolar e a
escolar, diminuindo a prevalência durante a adolescência e sendo rara em
adultos.
Na maioria dos casos é possível identificar os fatores desencadeantes das
crises de vômitos como situações que geram ansiedade ou euforia, infecções de
vias aéreas superiores, exaustão física, exposição a temperatura elevada,
cinetose, menstruação, entre outros.
No entanto, várias doenças podem se manifestar com a síndrome dos vômitos
cíclicos. Assim, a abordagem diagnóstica da criança com essa síndrome deve
ser abrangente, no sentido de incluir o conhecimento dos aspectos
psicoafetivos e psicossociais da criança, isto é, conhecer a rotina de vida e
as reações e relações da criança na família e na escola, ao mesmo tempo em
que é feita a investigação laboratorial na busca de causas orgânicas
(distúrbios gastrintestinais, metabólicos ou endocrinológicos e processos
intracranianos). Portanto, quando se identificar na comunidade crianças que
foram internadas várias vezes com vômitos e desidratação por motivos não
esclarecidos é importante encaminhá-las para centros especializados para
investigação diagnóstica.
INVESTIGAÇÃO COMPLEMENTAR
A necessidade da realização de exames laboratoriais nos pacientes com quadro
agudo ou recorrente de vômitos é definida pelos dados encontrados na história
e exame físico. Quando o diagnóstico provável é de refluxo gastroesofágico
fisiológico, não há necessidade de confirmação laboratorial.
Nos casos com suspeita de doença do RGE, inicia-se a investigação pelo estudo
radiológico contrastado do esôfago-estômago-duodeno (EED). A positividade do
EED é variável nos diferentes serviços, desde 40 até 86%, em média em torno
de 50%. Apesar de ter baixa sensibilidade e especificidade, o EED apresenta
como vantagem a possibilidade de demonstrar alterações anatômicas como hérnia
de hiato, estenose esofágica, estenose hipertrófica do piloro e alterações no
mecanismo da deglutição. Portanto, a ausência de RGE no EED não exclui o
diagnóstico e as medidas devem ser mantidas. Deve-se orientar os pais a
suspenderem o uso dos medicamentos anti-refluxo cinco dias antes da
realização do EED. O exame de maior sensibilidade e especificidade para o
diagnóstico de RGE é a pHmetria do esôfago (teste do refluxo ácido), que só
está disponível em alguns centros especializados.
ABORDAGEM TERAPÊUTICA
Quadros agudos de vômitos
Para o tratamento inicial do quadro agudo de vômitos, sem etiologia definida
e sem outros sinais ou sintomas de gravidade, recomenda-se pausa alimentar de
curta duração, por uma ou duas horas, mantendo-se a oferta de líquidos, água
e chás, em pequena quantidade. Os líquidos são melhor tolerados quando
gelados ou à temperatura ambiente. Em seguida, inicia-se a reintrodução da
dieta adequada para idade, em pequena quantidade e a intervalos menores do
que o habitual, sem restrição ao uso de leite materno ou leite de vaca ou de
outros alimentos naturais (não industrializados). Quando o vômito associa-se
à diarréia e desidratação, mantém-se a pausa alimentar durante a fase de
reidratação e não devem ser administrados antieméticos (ver capítulos
Diarréia Aguda e Desidratação).
No Quadro 3, estão descritos os quadros agudos de vômitos que devem ser
referidos imediatamente para o hospital, com as respectivas condutas enquanto
a criança aguarda a transferência.
As drogas antieméticas, dimenidrinato e metoclopramida, devem ser utilizadas
com cautela, pois podem mascarar os sintomas, de modo a dificultar o
diagnóstico precoce da deterioração do quadro clínico e da sua etiologia e,
conseqüentemente, retardar a instituição do tratamento especifico. Assim, os
antieméticos podem ser utilizados nos casos em que se conhece a etiologia do
vômito, como no caso de amigdalite aguda, otite média aguda, sinusite e, em
alguns casos, de cinetose.
A dose preconizada de dimenidrinato por via oral ou intramuscular é de 5
mg/kg/dia, dividida em quatro vezes, não ultrapassando a dose de 75 mg/dia,
150 mg/dia e 300 mg/dia para crianças até seis anos de idade, entre 6 a 12
anos e maiores de 12 anos, respectivamente. Contra-indicações: crianças até
30 dias de vida e pacientes com hipersensibilidade conhecida aos componentes
da fórmula. Efeitos colaterais: sonolência e sedação. Podem ocorrer também
tonturas, insônia, excitação, secura da boca e das vias respiratórias e
retenção urinária.
Quanto à metoclopramida, recomenda-se a dose de 0,5 mg/kg/dia, divididas em
três vezes, por via oral, intramuscular ou endovenosa. Para crianças com
idade inferior a seis anos, recomenda-se não ultrapassar 0,1 mg/kg/dose. Dose
máxima: 15 mg/kg/dia. Contra-indicações: em pacientes epiléticos ou que
estejam recebendo outras drogas que podem causar sintomas extrapiramidais.
Efeitos colaterais: inquietação, fadiga, sonolência, cefaléia, tonturas,
urticárias e sintomas extrapiramidais (espasmos dos músculos faciais, trismo,
posições bizarras da cabeça e dos ombros, opistótono e aumento generalizado
do tônus muscular).
Quadro 3. Condutas nas crianças com quadros clínicos graves com queixa de
vômitos
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QUADRO CLÍNICO
Sinais e sintomas |
SUSPEITA DE ABDOME AGUDO
· vômitos biliosos
- de cor verde ou
· vômitos fecalóides
- com cheiro de fezes ou associação de vômitos repetitivos ou vômitos em
jato com:
- parada de eliminação de gases e fezes ou
- palpação de massas no abdome ou
- peristaltismo visível ou
- sangramento intestinal |
· vômitos com sangue vivo
liqüefeito e/ou com coágulos ou com sangue digerido, semelhante à borra do
café, que pode ou não estar misturado a alimentos (exceto quando há certeza
de deglutição de sangue, como no caso do lactente em aleitamento materno
cuja mãe apresenta fissuras mamárias com sangramento e nas crianças com
sangramento nasal concomitante)
· suspeita de intoxicação por ingestão habitual de medicações como
teofilina, aminofilina, digitálicos, ácido acetilsalicílico e outras
· ingestão de corpo estranho ou de produtos químicos |
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Conduta |
· não dar antieméticos
· não dar antibióticos
· manter jejum
· referir imediatamente para o hospital
· se a transferência não for feita imediatamente:
- proceder a hidratação por via endovenosa
- se não estiver desidratado, instalar soro de manutenção
- quando possível, instalar sonda nasogástrica
· e mantê-la aberta |
· não dar antieméticos
· não colocar sonda nasogástrica
· manter jejum
· referir imediatamente para o hospital
· se a transferência não for feita imediatamente:
- proceder a hidratação por via endovenosa
- se não estiver desidratado, instalar soro de manutenção |
Quadro recorrente de vômitos
Para os lactentes nos quais são identificados erros de técnica alimentar,
são feitas as orientações adequadas e agendado retorno em sete dias para
verificar a evolução do quadro e a aderência às orientações.
Para as crianças com suspeita de RGE, a abordagem terapêutica visa a melhora
dos sintomas, a prevenção dos processos aspirativos pulmonares e a instalação
ou a progressão da esofagite.
Diante da suspeita clínica de RGE fisiológico, como já foi referido,
não há necessidade de investigação laboratorial e a seqüência da introdução
das medidas terapêuticas pode ser a seguinte:
1. é fundamental a tranqüilização
dos pais, explicando-se a normalidade da situação. Geralmente as medidas
posturais são suficientes para diminuir a sintomatologia: posição em
decúbito lateral elevado a 45-60º, evitando-se a posição de bruços para
dormir devido à sua associação com a síndrome da morte súbita em lactentes.
Pode-se utilizar o "Flex Baby", com inclinação da cadeira de 45º.
Deve-se evitar o uso de roupas apertadas, bem como a manipulação das crianças
após as refeições. É importante que as orientações sobre como realizar o
decúbito elevado, com a elevação da cabeceira do berço e o auxílio de
suspensório adaptado às vestes, sejam feitas de forma detalhada (Figura 1);
2. na reavaliação após uma semana,
se não houver melhora significativa dos sintomas, deve-se verificar,
primeiramente, se houve adesão adequada da família em relação ao decúbito
elevado 24 horas por dia e, nesses casos, instituir tratamento dietético:
para os lactentes em aleitamento artificial ou misto, orienta-se oferecer
porções menores e mais freqüentes dos alimentos e espessamento do leite de
vaca, adicionando-se cereais na concentração de 3 a 4%, isto é, uma e meia ou
duas colheres das de chá rasas para cada 100 ml de leite, respectivamente.
Alguns alimentos devem ser evitados por diminuírem a pressão do esfíncter
inferior do esôfago, como chás, café, chocolate, frutas cítricas, gema de ovo,
alimentos gordurosos e frituras. No entanto, deve-se ter o cuidado de avaliar
o valor protéico, calórico e vitamínico resultante da dieta proposta, para
que não haja prejuízo nutricional da criança. Dessa forma, antes de se
excluir, por exemplo, a gema de ovo, deve-se ter o cuidado de verificar a
possibilidade de substituí-la por outro alimento de valor nutritivo
semelhante. Água e sucos não-cítricos não devem ser oferecidos às refeições,
para diminuir a distensão estomacal.
As crianças em aleitamento materno exclusivo, que não apresentarem boa
resposta ao tratamento postural, devem continuar a ser alimentadas sob livre
demanda, oferecendo-se, antes de cada mamada, duas a três colheres das de chá
de papa de Epstein1. Aliás, o aleitamento materno deve ser incentivado,
pois as mães, por vezes, ficam inseguras à respeito do próprio leite,
suspeitando que ele possa ser a causa dos vômitos da criança. Não existe
indicação para substituição do leite materno por leite de vaca nos casos de
RGE.
Fig. 1 - Sugestão de desenhos que o profissional de saúde, sem habilidade de
desenhar, pode reproduzir para facilitar a compreensão da necessidade de
decúbito elevado para o tratamento do RGE e de como fazê-lo. A. Orientação
sobre a necessidade de decúbito elevado de pelo menos 45º - desenho com a
moringa deitada e em posição oblíqua (a 45º), cujo bojo e gargalo representam
o estômago e o gargalo, respectivamente. B. Confecção de suspensório
simplificado, para mães que não são costureiras: costurar um tecido de
algodão na parte de trás de uma calça curta e, bem acima da cabeça da
criança, abrir o tecido em duas tiras. C. Desenho que orienta como elevar o
berço, colocando apoios (por exemplo, tijolos) sob os pés da cabeceira e como
fixar o suspensório no berço com as tiras do tecido amarradas nas grades ou,
sob o colchão, no estrado.
3. No retorno, na semana seguinte, se não houver melhora clínica
significativa, apesar de as medidas posturais e dietéticas estarem sendo
feitas de modo correto, pode-se instituir o tratamento medicamentoso
(bromoprida), com reavaliação após uma semana. Se houver melhora clínica, o
tratamento medicamentoso deve ser mantido por pelo menos oito semanas e as
medidas posturais e dietéticas, mantidas até seis meses após o
desaparecimento dos sintomas.
4. Se, mesmo com o uso de bromoprida, os sintomas persistirem, considera-se a
possibilidade de doença do RGE, iniciando-se a investigação laboratorial por
meio da solicitação do EED (suspender a bromoprida cinco dias antes da
realização do exame) e encaminhando-se a criança para o centro de referência
especializado.
Tratamento medicamentoso do RGE: utilizam-se drogas que facilitam o
esvaziamento esofagogástrico. A bromoprida, administrada na dose de 0,5 a 1
mg/kg/dia, dividida em quatro a seis vezes por dia uma hora antes das mamadas
ou das refeições e antes de ir dormir, tem sido muito utilizada na prática,
sendo pouco freqüente o surgimento de efeitos colaterais (sonolência,
astenia, cefaléia, calafrios e, mais raramente, espasmos musculares localizados
ou generalizados, reversíveis com a suspensão do medicamento ). A medicação
considerada mais eficaz para o tratamento da doença do RGE é a cisaprida. No
entanto, recentemente, várias publicações têm relatado o encontro de
alteração da repolarização ventricular associada ao uso de cisaprida. Sabe-se
que níveis elevados de cisaprida, assim como a instituição concomitante de
cisaprida com outras drogas que são metabolizadas na mesma via hepática,
predispõem à arritmia cardíaca. Com base nesses relatos, a partir do ano
2000, a venda da cisaprida no Brasil passou a ser controlada, com a receita
médica sendo retida na farmácia. Assim, orienta-se que o médico de saúde da
família dê preferência ao uso da bromoprida, deixando a cisaprida como
medicamento a ser instituído, quando necessário, em centros especializados.
No entanto, o médico deve estar ciente de que está contra-indicado o uso
concomitante de cisaprida com as medicações dos seguintes grupos: macrolídeos
(eritromicina, azitromicina, claritromicina e outros), antifúngicos
imidazólicos (cetoconazol, fluconazol etc.), inibidores das proteases
(anti-retrovirais), antiarritmicos e ciclosporina. Além disso, deve-se evitar
o seu uso em portadores de doenças cardíacas e hepáticas.
Para as crianças com quadro clínico sugestivo de doença do RGE,
deve-se introduzir as medidas posturais e dietéticas e reavaliar em sete
dias. Quando a resposta a essas medidas não for adequada, solicita-se a
realização de EED, associa-se o uso de bromoprida e encaminha-se a criança
para o centro de referência especializado.
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